Por Roy
Sonetos de Amor (ou Como Amar com Poesia)
I
E eis que um dia o poeta disse alto
De seu mais profundo recôndito de dor
Para não restarem dúvidas ao mais cauto
Bradou heroico: ‘Faça-se o amor’

A todos a notícia espalhou o arauto
De repente o mundo se encheu de cor
A alegria contaminava de sobressalto
Os sorrisos se abriam como botões em flor

Este sentimento que se alimenta de versos
Trouxe júbilos, deixa perplexos e extasiados
Aqueles que nele se permitem imersos

Consigo um vislumbre da paz derradeira
E ainda se tal benesse lhe concedem os fados
O espírito inflamado transborda sem beira.

II
Além de o amor com suas mãos forjar
Já que impedir o desamor o poeta não pode
Preparou ele o mais delicioso manjar
Que os doentes do coração acode

Descobriu que é bonito em versos chorar
As mágoas cantadas em melodiosa ode
As lamúrias se vão como vagas no mar
Os lamentos vibram em perfeito acorde

Com esse prato feito de rimas e estrofes
Ajudou o poeta na solidão dos desamantes
Deu-lhes um fôlego de muitos foles

Saciada do trauma a profunda tristeza
Renovada ficou a esperança dos postulantes
De em placidez ver na vida doce beleza.

III
Ah, sus, o amor em versos é tão belo!
Não há coisa igual no mundo
De uma serenata o som singelo
Não deixa o coração tão fecundo

É um sentimento tão sincero
Que em questão de segundos
Com a pessoa amada cria um elo
Das alturas dos céus oriundo

Com ele o pôr do sol é mais vivo
A vida é mais leve e densa
Quem dele se beneficia não pensa

Simplesmente vive, rosto em riste, altivo
Guarda raríssima joia de quem se ama
O olhar que em tudo sentido derrama.

IV
Agora que te amo com todo o meu ser
Meu peito se comprime de saudades
Ando perdido nas ruas sem nada ver
A tua lembrança é minha única realidade

Afastar-me de ti me impede de viver
Peço humildemente aos céus a caridade
Que em um piscar de olhos eu possa ter
Ao meu lado aquela musa de felicidade

A tua distância corrói os meus dias
Sinto-me desfalecer por tempo infinito
Entro em um labirinto de paredes frias

Reencontrar-te é como acordar de um sonho
Bom e perceber que é deveras mais bonito
O mundo para o qual volto, risonho.

V
És de todas a dama mais bela
O teu riso brota em suave fonte
Iluminado por olhos de languidez singela
Ressaltando suave feminina fronte

És pintura da mais linda tela
Altiva como elevado monte
Labiríntica de muitas vielas
Não há poeta que não te conte

Pensar em ti alegria me traz
Contemplar-te em lampejo fugaz
Em meus braços ter o teu corpo

Não há bem maior que possa querer
Enquanto durar todo o meu viver
Do que em teus cabelos morrer absorto.

VI
Após um dia no qual nada tem razão
Quando em pensamento horas sem rumo
Vagueio, sentir junto à minha a sua mão
Afasta de mim negras cortinas de fumo

Abraça-me, quero tua segurança, senão
Sei, sinto que perderei o prumo
Ao seu lado me esqueço do mundo vão
Derreto-me em um último beijo sumo

Pousar minha cabeça em seu regaço
Restaura aquela há muito perdida paz
Que consigo o auge da inocência traz

Com você o meu olhar antes baço
Em um rio de felicidade desponta
Pelo áureo caminho que o destino aponta.

VII
Apenas em um momento imaginar-te
Junta abraçada a outro alguém
Encolerizo-me e vou além
Sofro deveras destarte

Não sei se o universo comparte
Ou se fica de minha dor aquém
Por ser só pensamento digo amém
Floreios de diabólica arte

Os teus lábios pousando em outros
Lábios que não os meus soltos
Morro por essa cena recriar

Não traia a minha esperança
Dá-me por favor esta fiança
De seres só minha em infinito mar

VIII
Ter o teu corpo em rubras horas
Os teus beijos lânguidos roubar
A mim tua pureza entregar
Nadarmos juntos por muitas auroras

Ser sua em infinitas noites quentes
Sentir os seus braços tomando os meus
Em mim levo apenas um camafeu
E os beijos que lhe dou apaixonadamente

O teu perfume inebriante de Flora
As tuas curvas extasiantes sem ar
Me deixam, sempre irei te amar

Nossos corpos em brasas ardentes
Agradeço humildemente a Deus
Tal ventura, nunca lhe direi adeus.

IX
Em uma tarde de sábado a calma
De andar de mãos dadas
Com as tuas, flor amada,
É divina benção para minh’alma

A suavidade e calor de tua palma
A tua leveza e dulçor de fada
Olhar de doce alvorada
Meu peito palpitante acalma

A beleza de teu amor suave
Entre nós não há nenhum entrave
Navegamos em todos os assuntos

Agradeço por estar ao teu lado
Ser teu companheiro alado
De sonhos sonhados juntos

X
E eis que chega a roda viva
Mesquinha, podre, vil
E nos mostra a ilusão servil
Conquistou-nos miragem lasciva

O castelo sempre cativa
Mas a fundação de areia se abriu
Mas a torre de mármore ruiu
A poesia se desfalece decisiva

O ideal pelo poeta cantado
Às areias do tempo não resiste
Ao exame do quotidiano nem insiste

O real a duras penas afastado
Com todo seu peso esmaga
Afoga-nos imensa vaga.

XI
Apenas um eco daquela miragem
Resta-nos baço na memória
Não se ergam túmulos em sua glória
Não lhes prestemos homenagem

Morta está tamanha bobagem
Esgoto que envolve a escória
Rotos os alicerces desta história
Torta deveras era sua mensagem

Oh, sofrimento que preenche o ser
Inominável dor que oprime no leito
Resignar-se em solidão comprime o peito

Desatentos dependemos sem perceber
Dos versos mentirosos do poeta
No coração nos fere oculta seta

XII
Passada a dor primeira é preciso fingir
Esquecer-se que é feito de pura ilusão
O sentimento cantado em bonito refrão
Ao ponto que a realidade a ele irá aderir

É triste ao simples sofrimento cingir
Aquilo criado por arguto artesão
É feliz quem recita o seu bordão
E deixa ao olvido o afligir

Sonhar suave com um verde campo
Um amor doce de véu sacrossanto
Sem prestar atenção no areal

O júbilo vem para aqueles que respiram
O sentir poético e digerindo-o o tornam
Mais verdadeiro que o real.

RJ, Jan/2012

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