Desembarcando de nós mesmos…

Para nós, que estamos num árduo e oportuno caminho da reinvenção pessoal, sugiro a leitura incansável dos Quartos de Badulaques de Rubem Alves. Espetacular!

Vez por outra visito sua casa para deliciar-me com prazer de tantos alimentos deliciosos.

http://www.rubemalves.com.br/quartodebadulaques.htm

Fiz alguns recortes que incitaram minhas reflexões nesta manhã.

Anamastê

Luinha

Quarto de Badulaques LXX

“Não conseguimos desembarcar de nós mesmos”, disse Bernanrdo Soares. É inútil ir até a China se fazemos a viagem sem sair de dentro dessa bolha dentro da qual vivemos. Tudo o que virmos e pensarmos nessa viagem será uma repetição da nossa mesmice. Isso vale para viagens. E vale também para a leitura. Porque toda leitura é uma viagem por um mundo desconhecido. Não, isso que escrevi não está certo. Há livros que não nos levam a viajar por mundos desconhecidos. Eles apenas repetem a nossa mesmice. Por isso são de leitura fácil. Há alguns anos, quando estive preso numa cadeira por causa de uma operação de hérnia de disco, pus-me a ler uma série de livros que tinham estado à espera, numa prateleira. Mas eles davam canseira na cabeça de um homem que estava doente. Quem está doente não quer viajar. Mudei-me então para os policiais da Agatha Christie. Leitura de passa tempo, porque não era preciso pensar. Todos eles são iguais. E eu ficava no meu mundinho. Para se entender um livro de outro mundo a primeira condição é sair do nosso mundo. Isso exige uma decisão preliminar: “Vou, provisoriamente, num jogo de faz de contas, parar de ter minhas idéias. Vou desembarcar do meu mundo. Vou entrar no mundo do autor. Vou aprender a sua língua…” Se eu não fizer isso não terei condições de entendê-lo, se for o caso, ainda que para discordar dele honestamente. Se eu parto do pressuposto de que o autor só diz besteiras eu só lerei besteiras – as que estavam dentro de mim. Lembro-me dos meus tempos de universidade: se alguém ia ler Max Weber ia sabendo que ele era o “ideólogo da burguesia”. Se se ia ler Durkheim sabia-se de antemão que ele era um “funcionalista conservador”. Para se ler Nietzsche é preciso antes ficar nu e tomar um banho. Se vocês quiserem ler um exemplo de absoluta incompreensão de Nietzsche leiam o que Coplestone, padre jesuíta, disse dele na sua história da filosofia. 

 

É preciso, antes de mais nada, desconfiar do nosso estoque de experiências, colocar as nossas certezas de lado. Aqueles que absolutizam as suas experiências estão condenados a ser inquisidores. É preciso rezar diariamente a reza que Karl Poper nos ensinou: Nós não temos a verdade. Nós só podemos dar palpites…”

….Tudo é uma eterna repetição. O que já foi de novo será… Pelo menos essa é a sabedoria do Eclesiastes. Conta-se que durante a segunda guerra mundial, na divisa entre Suíça e Alemanha, estavam duas guarnições militares: a alemã, do lado da Alemanha e a suíça, do lado da Suíça. Os soldados nazistas resolveram dar um presente aos suíços. Enviaram-lhes uma caixa própria de presentes. Quando os guarda suíços a abriram estava cheia de cocô alemão… Os suíços resolveram retribuir o presente. Quando os alemães abriram a caixa lá estava um lindo queijo, enorme, amarelo, perfumado, e um bilhetinho: “Continuemos assim a nos presentear com aquilo que temos de melhor…”   Pulo da fronteira entre Suíça e Alemanha para Araxá, onde viveu Dona Beja… Ela era odiada por todas as mulheres honestas do lugar. Estas, movidas pelo pecado verde, a inveja. enviaram-lhe um presente: uma caixa cheia de bosta de cavalo. Ela retribuiu: enviou flores a todas as mulheres que, segundo o seu conhecimento, eram as “presenteadoras”, com um bilhetinho: “Cada um presenteia com aquilo que tem de melhor…”  Os dois casos são variações de um mesmo tema que se repete em todos os lugares. É uma boa filosofia de vida.

 

Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s