La maîtresse

Ai ai…

Assim que acordei fui correndo ler a crônica de hoje de Juremir Machado da Silva. Quando percebi o tom entrossolho coloquei minha seleção de francesas. Charles Trenet e Aznavour, Patrícia Kass , Toots Thielemans foram desfilando e embalando ainda mais minha imaginação. Adoro fazer essa combinação de cenários e permitir-me criar realidade. Vesti-me dos amantes afogueados pelos toques sedentos, emprenhada de motivos e sensações. As letras irrepreensíveis mostram o tom da arte do jornalista predileto. Ele me leva às nuvens . Coisas de quem sabe ensinar a pescar.

Ai ai…

Ao final gargalhei… não podia deixar de ser.

Agora indo passear no parque

Luinha (cheia de boa-vontade)

 

 

O HOMEM QUE PERDEU O CORAÇÃO

Quando meu amigo me disse que havia perdido o seu coração por uma mulher jovem e linda eu comecei a rir. Era romântico demais para um grande intelectual francês acostumado a encontrar ministros e presidentes da República. Ele me explicou que a garota era deslumbrante, charmosa, inteligente e que cheirava a flores do campo. Sei, sei, eu disse, tentando aceitar a sua metáfora antiga como se fosse uma maneira muito nova de expressar uma paixão fulgurante. Mesmo assim, a expressão ‘perder o coração’ não casava bem com o cartesianismo dos franceses. Principalmente com os costumes civilizados dos franceses, sempre tão acostumados a amantes e jogos de sedução.
Aí ele me deu detalhes. Havia passado uma temporada hospitalizado. Ao sair, correra para um encontro com a moça no Jardim de Luxemburgo. Precisava mais do que nunca sentir-se vivo. Imaginei a cena. Um belo dia ensolarado, flores coloridas em todos os canteiros, a Torre de Montparnasse despontando negra e exótica ao fundo, e o meu amigo apaixonado, ainda cheirando a hospital, abraçando e beijando a sua maîtresse como um colegial fascinado pelo primeiro amor ou como um personagem de um filme de François Truffaut. O Jardim de Luxemburgo é, sem dúvida, o melhor cenário para um reencontro primaveril depois de uma longa reclusão num hospital ou para a explosão de um amor contido por circunstâncias adversas. Tudo me parecia clichê.
Os franceses quase sempre são precisos naquilo que dizem. O próprio termo maîtresse (amante) é perfeito: aquela que domina, a dona. A organização das flores no Jardim de Luxemburgo também revela uma cultura obcecada pela exatidão e pela métrica. É como um quadro cuja beleza deriva das cores, dos arranjos e do efeito de simetria. É verdade também que os franceses sabem utilizar elementos de dissonância para criar ainda mais simetria e sedução. Vejam os casos da Pirâmide do Louvre, do Centro Georges Pompidou e da já citada Torre de Montparnasse. Surgiram como dentes cariados na paisagem majestosa e clássica de Paris e acabaram por se integrar ao conjunto como partes indissociáveis de uma plástica arrojada. Nesse sentido, ao menos, meu amigo e sua namorada, num jardim florido do Quartier Latin, poderiam figurar como elementos de um cartão-postal planejado para encantar turistas ingênuos.
Meu amigo tratou de esclarecer a situação. Saíra do hospital destinado a voltar para um transplante de coração. O médico o colocara numa fila de urgência para uma doação. Se tudo corresse bem, ganharia um coração novo em alguns meses. Na época, ainda não existiam telefones celulares. No Jardim de Luxemburgo, ele se sentiu renascer nos braços da sua francesinha. O coração velho bateu como se fosse novo. Ao voltar para casa, rejuvenescido, encontrou três mensagens na secretária eletrônica. A primeira, de 16h30min, avisava-o de que haviam encontrado um coração novo para ele. Era preciso que retornasse imediatamente ao hospital. A segunda, de 16h45min, advertia-o de que se não fizesse contato nos instantes seguintes, o coração seria doado a outro paciente. A terceira, de 17h, avisava-o de que havia perdido o seu coração para outro. Permaneceria na fila até que surgisse uma nova oportunidade. Foram necessários longos e sofridos meses para recuperar o coração perdido. Meu amigo canta: ‘Je ne regrette rien’.

juremir@correiodopovo.com.br

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