Avignon

A crônica

Beijos

Luinha 

AVIGNON
Juremir Machado da Silva


Estamos cercados de amigos por aqui. Philippe Joron e Clélia são os nossos anfitriões. Patrick Tacussel e Ashnia já nos mostraram tudo das cercanias, entre litoral, campanha, vilarejos e montanha, com direito a degustação dos vinhos brancos Picpoul, uma das especialidades da região, e trufas. Mas nunca temos coragem de experimentar as ostras tão apreciadas. Até escargot é mais fácil de engolir. Todos nos convidam para ver ou rever lugares fantásticos. Fomos com Jean-Bruno Renard, professor de Sociologia na Universidade de Montpellier, e Miriam passar o meu aniversário em Avignon, a cidade dos papas franceses, tendo a doce nostalgia de Charles Trenet como fundo musical. Depois, foi só comemorar com um bom rouge.

No século XIV, Avignon abrigou sete papas reconhecidos e dois antipapas, ou seja, os que não aceitaram o retorno do papado a Roma. O Palácio dos Papas tem a imponência e a frieza que costumam caracterizar os monumentos mais extraordinários. Fiquei imaginando os antipapas sob o vento selvagem, frio, seco e violento que envolve a cidade, olhando as águas então furiosas do Rhône, mergulhados nas suas batalhas teológicas ou nem tanto. Afinal, o Palácio dos Papas era uma fortaleza e os inimigos atacavam com armas terrenas. A religião é só mistério. Sempre há um lado luminoso em tudo. Por exemplo, na fé, que pode salvar, matar ou construir templos inacreditáveis. Ou no imaginário popular. Cantarolamos como todo mundo a canção de quase todas as crianças: ‘Sur le pont d’Avignon on danse…’.

Quando deixamos Avignon já era noite e havia uma lua com um sorriso brincalhão no seu rosto redondo ainda incompleto, como se imitasse justamente a Ponte de Avignon, que, há muito, termina bem no meio do rio. Creio que o vinho e os 45 anos me deixaram sentimental. Ou foi Trenet, com suas paisagens, lembranças e jogos de palavras. Os vestígios romanos estão por quase toda parte no Sul da França. Montpellier era caminho para a Espanha. Na ida para Avignon, paramos na Ponte do Gard, na origem, um aqueduto romano espetacular que levava água para N’mes. É sempre como passear dentro de um livro com imagens em tamanho natural. Melhor ainda quando os amigos conhecem muito e fazem comentários tranqüilos que nos enchem de admiração. Confesso que me regalei com esses presentes de aniversário. Mas, em algum momento, não deixei de pensar em Palomas.

juremir@correiodopovo.com.br

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