Recomendações de uma sogra

Interessante isso de sentir-se completamente só. Não se trata de abandono porque o fone está ali a poucos centímetros. A vida está totalmente disponível lá fora bastando ter olhos de ver. A questão é de direito de escolha, poder sentir-se só. Lembro-me que fui visitada pela primeira vez por esse desejo quando tinha 28 anos. Eu e Sueli, minha amiga de infância mais íntima, deitamos na enorme cama da casa de sua mãe e ficamos divagando como seria maravilhoso morarmos completamente só, apartamento arrumadinho, organizado ao nosso bel prazer, inteirinho só pra uma pessoa. Ela quem começou com tais especulações, vinha de uma família de 5 filhos e toda confusão oriunda disso. Imaginem uma casa com 4 homens, seus amigos e tal. Dizia que estava exausta de toda aquela gente. Eu, acabara de me separar, era totalmente independente, livre, corajosa e autônoma. Com 28 anos somos semi-deusas, podemos tudo. Estava em uma fase de pleno controle de tudo. Foi fantástico porque ela, recém-casada, aguardava seu apartamento ficar pronto, eu, acabara de me separar depois de 11 anos de boa vida conjugal, era dona absoluta de minha casa e de meu nariz, mas fui na onda, já gostava de sonhar. Lógico que imaginamos morar em apartamentos contínguos.  Saímos dali e compramos nosso primeiro imóvel, um ao lado do outro, na Barra da Tijuca, que na época sofria um boom de ocupação urbana. Percebemos que poderíamos pular a varanda no 18º andar numa boa. Estava perfeito, crescemos juntas e ficávamos agarradinhas vendo filme de terror às segundas-feiras. Ela assanhada e namoradeira insistia para que eu fosse mais atirada e beijasse todos na boca. Sempre estava a alardear as maravilhas do beijo. Isso nem é coisa nova não, minha gente. Conheci meu primeiro marido em sua casa, na época, minha também. Precisávamos de um fictício juiz importante e recebemos a indicação de uma pessoa. Quando chegamos à casa de Fernando e explicamos a situação, ele aceitou logo o papel. Saímos assanhadas ao melhor estilo Baubo com as perspectivas de carne nova. Para nós, com 16 anos, ele era um velho de 22, servia bem para a função. Incrível isso da novidade, como interfere na curiosidade das pessoas. Os “meninos” então – ui ui – como se sentem vulneráveis, né mesmo? Ali o coração do Nando foi fisgado, ele me confessara logo depois que não mais dormira só. Engraçado como homens sentem-se atraídos por cabelos compridos. Meninas, jamais cortem as cabeleiras.

Eu e Sueli éramos as únicas que não dominávamos o dom musical, mas fomos para a final e ganhamos um prêmio especial. Houve favoritismo escrachado.

Foi a minha primeira vez frente ao assédio, ele passou a noite toda babando fascinado. Não desgrudou os olhos. Quando chegamos ao palco vibrava de emoção.  Era dezembro finalzinho de ano e depois de um papo cabeça de final de festival com direito a variados beijos marcamos de nos ver no dia 02 de 1973. Foi amor a primeira, segunda, terceira e 12 anos de vistas. Foi muito bom.

Bem, na realidade engatei uma primeira e me desviei do tema que era sobre solidão. Creio que nem sei muito sobre isso, portanto saí desandando sobre algo que domino com facilidade. Entretanto estou assim só, a filha foi passar esses dias de festa da virada na casa de praia de seu namorado. Posso tudo, que responsabilidade! Ai ai… Só o novo passaporte que  ficará pronto no dia 05.

Quando casei bem jovem recebi de minha sábia mãe “O Livro de uma Sogra”, de Aluisio Azevedo, já disponível para leitura e até audição pela internet, que recomendo para todos. Certamente na época não podia alcançar sua compreensão. Hoje percebo com enorme clareza como é importante essa solidão. Mulheres ou homens mandem seus companheiros ou (eiras)  pescarem, tirem seus dias exclusivos de “princesas e lobas”, longe de tudo e de todos, se tiverem coragem vão fazer uma viagem sem ninguém para cuidar. Isso dá um enorme fôlego a qualquer relação. Não temam perdas, pois uma união profícua não é feita de metades e, sim, de gente inteira, independente, com autonomia, que por livre escolha quer estar junto e partilhar várias coisas com o outro.

Love

Luinha

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